segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

I.

Caos

(8 dias atrás)

Os médicos disseram que ela nem sentiu dor.

Era quarta-feira, 7h da manhã, eu tinha voltado de uma viajem de negócio no Rio, soube que o morro em cima da minha casa tinha desabado, na hora liguei pra minha mulher, sem resposta, liguei pra amigos, parentes, ninguém sabia da Ava, falavam que a casa desabou na madrugada, ela devia estar dormindo, sonhando com o carro que eu ia comprar, sonhando em viajar, essas coisas que ela sonhava. Nem fui pra casa, corri pro hospital mais perto, o desastre tinha acontecido às 3 da manhã, a chuva caiu de uma vez, como se as nuvens tivessem desabando, imaginei eu dirigindo, tentando conter minhas lágrimas, tentando me convencer de que a Ava estava bem, leves ferimentos, eu não me importava de perder a casa, carro, nada disso se comparava à imagem da minha mulher morta num caixão.

Cheguei ao hospital, deixei o carro no estacionamento e joguei a chave pro manobrista, gritei qualquer coisa e corri pro pronto socorro. Na recepção, perguntei se uma Ava Meirelles foi admitida depois da enchente, eles não tinham nome ainda, descrevi a Ava (“Cabelo preto, uns 1,70m, olhos castanhos, uma marca grande de nascença no ombro esquerdo” – lembro-me de a marca parecer um avião, a gente brincava que na vida passada ela tinha morrido num acidente de avião, a gente ria da idéia) e onde morava, me encaminharam pra UTI. Da porta, dava pra ver um alvoroço de médicos debruçados sobre alguns leitos, enfermeiras corriam, traziam remédios, chamavam outras enfermeiras, lembro-me de não conseguir me mover quando reconheci os pés dela em um dos leitos, fiquei ali na frente da porta parado. Um médico alto me empurrou e me tirou do transe. Lembro de segurar uma enfermeira, e apontar os pés da Ava, queria saber o estado dela. Chamaram o tal do médico alto.

Na hora do acontecido ela estava na cozinha, a parede caiu perto dela, nenhum osso quebrado, mas ela foi levada pela enxurrada e bateu com a cabeça bem forte em algo bem duro, foi achada pelo corpo de bombeiros, foi encontrada já inconsciente, respirava com dificuldade, mas respirava, e isso era um bom sinal. Disseram-me que ela estava instável, e que era cedo demais pra falar se ela ia viver ou morrer, mas que ela teve sorte de estar na cozinha na hora que a casa desabou. Dr. Hans ele chamava, saiu correndo e disse que tinha casos mais urgentes. Muita gente morreu ali mesmo, no chão sujo, em meio aos seus pertences e a lama.

No hospital, o horror imperava. Uma mulher chorava no chão, uma criança a abraçava e chorava junto, vi ali a face de alguém que perdeu tudo, que soube ali mesmo que também tinha perdido alguém que amava, provavelmente o pai da criança que estava junto a ela, imaginava como seria a vida dessa mulher, o que passava na cabeça dela, como ela se lembraria do dia de hoje, ela gritava algum nome inteligível, assustava a todos na sala de espera, o desespero crescia, gente chorava baixinho, as imagens na TV mostravam caos, repórteres vasculhavam aquela merda toda, mostrando velhas no meio do escombro, crianças sozinhas, era cruel olhar pra TV.

Tentei não pensar na Ava por um tempo, não queria me desesperar ainda, tinha que fazer meu possível não perder a calma ali.

Sentei no sofá e vi o irmão dela, Ricardo. Ele se aproximou e me abraçou, e contou o mesmo que o bom Dr. Hans já tinha dito. Disse que ia ficar ali até ter mais notícias, ele me agradeceu e disse que ia pra casa tomar um banho. Eles nunca foram próximos, os pais dela já tinham morrido há 2 anos, a mãe dela em um acidente de carro, o pai de um infarto em um restaurante.

II.

Reestruturação

(6 dias atrás)

Passaram-se dois dias no hospital até que tive alguma informação sólida sobre o estado de saúde da minha mulher. Até lá, eu ficava sentado, esperando o Dr. Hans aparecer, eu dormi no sofá durante uma hora no segundo dia, liguei pro trabalho, expliquei o caso, tiveram que adiantar minhas férias para que eu não fosse demitido, trouxeram o Pereira uns dias antes, ele disse que entendia. Nesse tempo, tomei todas as medidas, procurei o seguro da casa, do carro, o plano de saúde. Informei o trabalho dela também. Ricardo apareceu no dia seguinte, perguntou se eu precisava de algo, ficou meia hora e foi embora.

A pior parte era esperar. Por que esperar me fazia pensar. E pensar no mundo sem ela me fazia entrar em desespero. Eu imaginava a cama com um espaço vazio, imaginava chegar em casa e não dar bom dia pra ninguém, imaginava o fim de nossas piadas internas, imaginava o velório, imaginava a face dela num caixão, coberta por um véu, suas mãos entrelaçadas sobre o peito, me imaginava chorando enquanto fechavam o caixão, é terrível imaginar que essa vai ser a última vez que se vai ver a pessoa que se ama, chorei várias vezes, não tentei esconder o terror, o terror que me consumiu durante esses dois dias.

“Estado de coma profundo” foi tudo que ouvi do Dr. Hans. Ela precisava ficar na UTI, seu caso era sensível, precisava de cuidado constante, ela não tinha data pra acordar, nem se ia viver até a semana que vem. O Médico me perguntou se o plano de saúde cobria todos os custos, disse que sim.

Mas a resposta era não, e dois dias após a conversa com Hans, o plano de saúde me procura, e diz que pode cobrir os custos por mais três dias na UTI, e mais 6 em um quarto.

Minha vida agora era ficar no hospital esperando notícias dela, as imagens começaram a sumir, comecei a ficar mais calmo, eu tinha que tomar decisões por ela, preenchi inúmeros formulários, conheci outras pessoas no meu estado, dias esperando no hospital, o seguro ofereceu um hotel, mas eu recusei, não queria sair dali. A tensão era palpável, em alguns dos casos, os enfermeiros procuravam um dos acompanhantes e o levavam até uma sala, de um jeito ou de outro, eu sabia que era nessas salas que eles contavam o destino final de seus entes queridos, os fins da vida, ali, naquela sala, ouvir a notícia num sofá confortável me parece fútil.

A hora das visitas era a pior. Ela tinha passado por 4 cirurgias, era horroroso ver o corpo dela nu coberto pelo líquido amarelo que eles colocam pra evitar infecções e tal. Na primeira vez que a vi, ela tinha tubos por todo o corpo, nos braços, na boca, na garganta, tinha uma bandagem na cabeça, tinham cortado o cabelo lindo dela, ela estava de olhos fechados, vi uma cicatriz na sua cintura, não quis perguntar, não quis falar com ninguém, minhas pernas fraquejaram, me recusei a desmaiar, coloquei a mão enluvada na sua face, pude dizer “Eu te amo” antes que os enfermeiros me arrancassem dali quando uma máquina apitou alto. Nas outras vezes não foi diferente, não podia tocá-la, pediam pra eu falar com ela, eu falava, tentava lembrar futilidades, coisas que a fariam sorrir (eu era bom nisso), nunca havia resposta, eu não chorava na frente dela, ela odiaria ver isso.

III.

Luta

(3 dias atrás)

O dinheiro do plano de saúde havia acabado. Um funcionário do hospital veio falar comigo, discutir dinheiro. Custaria muito para que ela ficasse ali. Muito mesmo.

Liguei para Ricardo, que não aparecia há 4 dias, disse que precisava conversar. Ele apareceu, apresentei as contas do hospital, ele tirou uma cópia, e disse que ia ajudar como pudesse. Nunca esperei ouvir dele outra vez, entrei em pânico quando ele simplesmente foi embora, não quis ver a irmã no horário de visitas, não aprecia ligar, quis correr atrás dele, soca-lo pelo moleque que ele era soca-lo por não ter ninguém pra eu ter raiva, soca-lo por que talvez eu nunca mais veria minha mulher viva. Deixei ele ir embora. Vendi meu carro na com cessionária mais próxima, eu tinha agora dinheiro para mais 4 dias de UTI, pedi adiantamentos, cobrei favores, eu venderia um braço por aquela mulher que estava na cama do hospital, daria meu sangue por ela, faria qualquer coisa por aquela mulher que agora respirava com a ajuda de aparelhos, aquela mulher enfraquecida cujos pulmões esqueceram de respirar, cujos órgãos começavam a falhar, eu daria tudo por alguma esperança.

Passaram dois dias, o estado dela piorava. Todos os pacientes da UTI já tinham ido ou voltado, alguns morreram, alguns saíram andando pela porta da frente, o tédio daquele lugar me assaltava, não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer, eu queria gritar, queria chorar, queria alguém pra me dar algum conforto, uma boa notícia, uma luz. Eu me lembrava que não tinha mais casa, não tinha aonde ir. Meu dinheiro no banco acabaria muito em breve, não tinha mais amigos, provavelmente não teria um trabalho me esperando, era estranho como eu parecia não me importar com isso, pensava nessas coisas com calma.

Eu só queria ouvir ela rir mais uma vez, ouvir sua voz. Ela sempre me dizia “tudo vai ficar bem”, eu queria acreditar nisso agora, se ela me dissesse, tudo ia ficar bem. Mas ela não estava ali pra dizer, ninguém estava ali pra dizer isso, a gente tinha se mudado há 2 anos, parecia que dessa vez tudo ia ficar melhor.

Eu não via um futuro sem ela.

Eu não via mais um futuro para ela.

IV.

Destino

Manhã

Acordei no hospital, nos últimos dias eu conseguia dormir no sofá por algumas horas, as enfermeiras me conheciam e me toleravam por ali. O Dr. Hans veio e sentou-se do meu lado, me acordando. Disse que o estado dela tinha se agravado, levaram ela pra 6ª cirurgia, dessa vez uma de 6 horas, houve complicações, mas ela estava melhor, seu coração parou uma vez na mesa. Ele me disse que vão dar um remédio novo pra ela, coisa experimental, pouco testada, havia muito tecido danificado. Já chorando, perguntei se ela sobreviveria, ele disse que não sabia, e me deixou sentado no sofá e voltou na direção da UTI. Minhas lágrimas haviam voltado, meus olhos doíam, eu não quis comer, não precisava mais ir ao banheiro. A fome que eu sentia me parecia uma piada num lugar desses.

Tarde

Após o horário de visitas, fiz uma decisão que mudaria tudo a partir dali. Se o novo tratamento não funcionasse, eu ia pedir que aliviassem o sofrimento. Era final, eu ia causar a morte da minha mulher, tinha decidido que essa era a melhor opção, o tratamento experimental era a última opção do hospital, logo algum enfermeiro me apresentaria a opção, não queria que me vissem vulnerável, ela odiaria me ver vulnerável. Eu pensava que essa ação também acabaria com o meu sofrimento, com a dúvida, com a angústia de ESPERAR pela morte da companheira que eu escolhi para VIVER até o fim da vida, e, agora que o fim dessa vida me parecia tão próximo, e a esperança tão míngua, começava a olhar para trás, para lembrar dos bons momentos (me parece cruel mencioná-los aqui), vi que tinha vivido uma boa vida ao lado dessa mulher, que ela me FEZ feliz, que cada momento a partir daquele seria uma espera até a minha própria morte. Aceitei isso. Perdi a esperança, era oficial.

Noite

O nome da enfermeira era Ava também.

Eu já não chorava mais. Comi um hambúrguer no boteco da frente, me permiti beber uma cerveja.

Eram 11 e 45, um som agudo vinha da UTI, médicos correram, enfermeiras correram também. Fiquei no lugar, talvez tenha sido a Ava, talvez não.

A enfermeira veio até a mim, pediu para que a acompanhasse até a sala dos enfermeiros.

Entrei, a sala era colorida em bege, a janela era coberta com uma persiana azul-bebê, o sofá era de couro bem tratado, provavelmente novo, haviam dois sofás, um de frente pro outro. O Dr. Hans estava sentado no meio do sofá que ficava de costas para a porta, meus passos pareciam pesados, eu andava torpe, respirava pesadamente, lembro de não conseguir colocar as mãos nos bolsos, lembro de querer desmaiar, lembro de querer sair correndo dali, não ouvir a Notícia nunca, descobri que alguma esperança ainda existia, queria que ela acordasse, queria minha casa de volta, queria voltar no tempo e morrer com ela, queria nunc a ter passado por isso. A enfermeira Ava me empurrou pela porta e a fechou atrás de mim.

Só ou vi baboseira médica, o Dr. parecia empolgado, falava rápido, eu não entendia nada. “Ela morreu?”

O silêncio pareceu me sufocar.

Hans me olhava com surpresa.

“Não, sua mulher acordou, meu amigo”.

Fim