quinta-feira, 4 de março de 2010

Acabei de passar meu 3º farol vermelho, 80km/h, bairro residencial, são 3h da manhã e eu acelero através das ruas, agora só existe o ronco do motor, acelero para passar minha raiva, acelero por que lá no fundo eu preciso gastar a adrenalina, então eu enfio o pé no acelerador. Em 2 minutos eu chego na casa dela, que já foi um pouco minha, e ainda é um pouco, não avisei que ia passar lá hoje, eu sempre aviso. Não sou o tipo de pessoa que faz as coisas diferentes sempre, mas acho que hoje posso abrir uma exceção.
Estaciono na frente do portão, paro pra pensar no que estou fazendo, pela primeira vez penso que posso estar errado, se é melhor eu deixar isso tudo pra lá, os 2 anos de namoro e 6 meses de noivado tudo pra trás, e procurar outra mulher, só a imagem de outra mulher na minha cama me causa repulsa, todas aquelas besteiras que a gente fala quando ta apaixonado são verdadeiras pra mim, nunca foram tão fortes quanto agora, estacionado na frente da casa dela, com as mãos no volante, cabeça baixa, chega a doer cada pensamento, o que ela fez depois da nossa briga, 4 dias atrás, será que ela chorou, será que procurou outro homem, alguma amiga, será que ela vê meu rosto em todo lugar, como eu, será que ela comeu hoje a noite, tantas perguntas, tanta dúvida que chega a machucar.
Pego a chave da casa no porta-luvas, a vaga na garagem dela ainda está vazia. Ao levantar a chave, penso que ela deve ter trocado a fechadura, seria uma coisa inteligente a fazer já que eu tinha cópia da chave, essa é a hora que eu quase vou embora, que eu quase viro as costas pra tudo que ela significou pra mim, as viagens para o exterior nas férias, o casamento planejado, a casa que ela ganhou dos pais, nosso tempo morando juntos, o pedido de casamento, quase perdi tudo isso. Vejo a cortina se mexer, acho que ela me viu aqui fora. A chave ainda funciona, entro e bato na porta.
A espera é cruel demais, penso que ela não quer me atender, escuto algo se mexer lá dentro, ouço passos, a maçaneta abre, no momento que a vejo só de calcinha veste uma camiseta antiga, do tempo que a gente começou a namorar, acho estranho, eu conheço cada centímetro ali embaixo, sei de cada curva, cada perfeição que ela deseja esconder, a idéia de que esses dias acabaram me aterroriza. Tenho vontade de me ajoelhar e pedir que me perdoe, o quão babaca eu fui, quero me humilhar por ela, venerar minha deusa, mas eu devo ser homem, digo boa noite:
-Boa noite, posso entrar?
-São 3 da manhã, que que você quer? – Ela diz, enquanto tenta arrumar os longos cabelos negros, ela chorava, posso ver em seus olhos, sinto um cheiro na casa, de solidão, de tristeza, sinto o cheiro dela.
-Preciso falar com você.
-Não podia esperar?
-Não.
-Pode entrar, eu faço um café. – Não entendo a cordialidade, nós nunca precisamos disso, nem no nosso primeiro encontro, nem nunca, ela vinha na minha casa, abrindo a geladeira, eu achava uma graça.
Eu entro, sento numa cadeira na cozinha, vejo caixas de pizza abertas em cima do fogão, o mp3 dela na mesa, um copo sujo apenas, marca de batom. Ela prepara o café, olho para sua bunda atrás da calcinha de seda, não percebi como eu sentia falta desse pedaço dela, como eu desejo correr até lá e arrancar essa roupa do corpo dela, se ela soubesse a vontade insana que eu fico quando ela abaixou pra pegar o pó de café ela não teria feito isso, ou demoraria um pouco mais. Ela termina de fazer o café e se vira, acho que percebeu que eu encarava seu corpo perfeito, acho que ela gostou disso. Ela se senta na cadeira na minha frente e cruza os braços, anteriormente, essa atitude sempre me predizia uma coisa: aí vem problema, dessa vez é o mesmo, mas percebo algo no olhar dela que me deixa mais confuso, não é aquele olhar do tipo “você fez merda, seu imbecil”, é algo diferente, eu nunca vi isso nela.
-Fala. –Ela diz e me encara com os braços cruzados.
-Só vim te ver, fiquei preocupado. –E eu realmente não tenho idéia do que dizer, em toda minha raiva, só tive o desejo cego de vê-la, não durmo há dois dias, não pensei muito no que fazer, hoje é domingo, a corrida na tv começa às seis, sei disso por que assistia sempre com ela, eu detestava a corrida, mas era bom passar as manhãs ao lado dela, às vezes eu dormia, mas, fazer o que?
-Se não vai dizer nada, vai embora. Só te ver já é ruim o bastante.
-Que você quer que eu diga? Que eu vou mudar? Que eu vou ser outro homem, que eu implore, “por favooor, volta pra mim”? É isso que você quer?
-Não sei o que eu quero. Agora eu quero que você suma da minha frente.
-Você sabe que eu só saio daqui resolvido com isso tudo. Eu sei que eu falei muita merda quarta-feira, você falou também. Quando a gente briga, a gente fala merda. Desculpa se eu te machuquei, você me machucou também.
-Foda-se a briga. Não quero mais te ver ponto.
-Preciso de um motivo, será que eu fiz alguma coisa, se eu te deixei de lado, se você se sentiu assim, não sei o que eu fiz.
-Eu já te falei tudo. Não vou repetir. Você nunca vai voltar a ser aquele cara que eu me apaixonei.
-Era você que sempre achava um motivo pra brigar comigo.
-Você nunca vai perceber mesmo, não é?
-Eu entendo, mulher, você é que não me entende, você sobe naquela sua torre da razão e nunca desce pra tentar escutar os outros.
-Então me faz entender.
-Viver com você ficou difícil cada briga por coisa idiota, você fazia cada coisa estúpida só pra me machucar.
-...
-Você provocava meu ciúmes, sabe que eu fico louco. Bati num cara por sua causa.
-Não me importa, nos últimos 3 meses você ficou longe de mim. Não parava em casa, chegou bêbado de madrugada, quem você acha que eu sou, sua mãe?
-A gente sempre brigava, até pior às vezes, quero entender por que você me mandou embora dessa vez, só isso.
-...
-Algo que eu fiz?
- Não – a voz dela quase não sai.
-Algo que eu não fiz?
-Não
-Me fala, porra, não posso viver longe de você sem saber o por que, não consegui mais trabalhar, esperei você ligar, você não liga, na tive coragem de te ligar, tem noção das coisas que eu penso?
-Não joga essa do suicídio pra mim.
-Não to falando em suicídio, às vezes penso que isso é por causa de outro. Penso é em homicídio.
-Não tem outro.
-É claro que eu vou acreditar em você agora.
-Você tem que acreditar.
-Me diz como, acho difícil. Me diz por que você me expulsou da nossa, da NOSSA casa?
-Nunca foi sua casa.
-Foda-se, eu morava aqui. Me diz por que.
-Você nunca vai entender.
-Só tenta me explicar.
-Não posso.
-Acho que você não sabe, ou não quer. –Nesse momento, ela olha pra baixo, me entregando que ela não sabe, vejo uma lágrima brotar devagar. Não posso chorar também, não posso.
-Tudo bem, eu volto outro dia. – E me levanto, com uma expressão grave, eu sei que ela não pode me deixar ir assim, ela simplesmente não pode fazer isso comigo...
Quando passo ao lado dela, ela segura minha mão, o toque da mão dela subindo um pouco no meu braço, o toque sem querer de seus cabelos... Ela olha pra baixo, sem saber o que dizer, ela sabe que o que ela dizer agora pode mudar toda a história, eu sei disso, e por mais que eu tenha medo do que ela possa dizer, confio que ela vai fazer a coisa certa, confio na minha mulher. Uma lágrima teima nos olhos dela, ela a deixa correr, essa lágrima me diz tanta coisa... Ela quebra o silêncio, que pareceu durar séculos. –Sabe que foi a primeira vez em 2 anos e 6 meses que eu fiquei mais de um dia sem te ver?
-Eu contei as horas.
-Eu contei os segundos.
Não posso chorar, não posso dizer que eu senti o cheiro dela todo o tempo, que meu coração pulava a cada vez que o telefone tocava, não posso contar que eu chorei, não posso. Sinto ela apertar minha mão. Ela se levanta, seu cheiro é como se fosse minha droga, que eu precisei por tanto tempo, fico quase tonto, sinto perder o equilíbrio ao sentir o cheiro dela, volto a me sentar, respiro fundo, quero encher meus pulmões com o cheiro dela, quero que ela more dentro de mim, seus longos cabelos negros tocam meu peito, meus pelos se arrepiam, ela ainda segura minha mão, toco a coxa dela com a minha, por um segundo eu penso que eu podia ter perdido isso tudo, por um segundo eu pensei que todo esse corpo e a mulher maravilhosa atrás dele podia ser de outro homem, por um segundo minha garganta aperta, não posso chorar, por um segundo eu olho nos olhos dela, ela levanta o olhar, ela chora, ela respira, todas as emoções fluem em um olhar, ela se arrepende por ter me mandado embora sem motivo, eu me arrependo por ter ido mesmo, eu me arrependo de ter raiva dela, eu quero dizer que eu a amo, sinto que vou chorar antes disso, ela quer dizer que me ama, eu sinto isso da mesma maneira que sinto que a única coisa que vai me fazer bem agora é voltar pra ela e ela voltar pra mim, não tinha que ser assim, eu nunca quis machucar ela, ela nunca quis me machucar. Preciso quebrar o silêncio, ela me abraça, eu a aperto como nunca, não me importo de machuca-la, senti falta disso tudo.
-Eu te amo. -Dizemos ao mesmo tempo.

(FERNANDO)

Um comentário:

  1. Quanto sentimento, não sei se história de vida me influenciou um pouco, mas tantos sentimentos juntos me comovem demais...

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