segunda-feira, 19 de julho de 2010

As Contas

I.
É uma tarde de Agosto, é frio dentro do escritório da Companhia de Luz. Dois homens discutem um problema:
-Você viu que a 556752 voltou outra vez?
-Vi, é a oitava nesse ano, des de fevereiro tá voltando, uma atrás da outra.
-Você sabe se já tem processo?
-Aham, fizemos mês passado, junto com o 556700, você que fez as petições.
-Ah sim, lembrei.
O tal problema é o serviço prastado a uma casinha isolada, não é que ela fica num bairro distante ou atrás de um matagal, a casa fica numa rua no coração da cidade, mas, há dois anos foi construído um viaduto bem ao lado, tirando todo o movimento de carros ou de pessoas da Rua dos Tordos, onde fica a casa. A única moradora, a Sra. Annabele parou de pagar as contas há um ano, a Companhia processou a cidadã em Janeiro e todas as citações têm voltado des de Fevereiro, como se ela se recusasse a receber ou a pagar o débito. Os homens que agora discutem são advogados, responsáveis pelos piores casos de inadimplência (no caso, o 556752 e o 556700).
-E agora, a gente não pode ficar mandando cartas e mais cartas.
-Pede pro oficial de Justiça visitar a 557652, nunca fez isso?
-Não, entrei ano passado só.
-Você peticiona, pedindo a diligência, paga as custas e cobra da 557652.
-Ok, vou começar já.

II.
Dois garotos jogam bola na Rua das Andorinhas, que faz esquina com a Rua dos Tordos, eles semrpe jogam bola por ali, moram na mesma rua, que não tem movimento algum, então é ótimo jogar futebol ali, não passam carros e nem outras crianças pra atrapalhar o jogo.
-Já viu aquela casa ali?
-Qual? Aquela depois da esquina?
-Aham
-Minha mãe disse que morava uma velha ali.
-Você já viu ela?
-Não, mas meu irmão disse que já viu ela comer um filhote de gato.
-Que horror! vamos jogar em outro lugar?
-Tá com medinho?
-To, não quero mais jogar aqui.
Após o jogo, o menino assustado pergunta para sua mãe sobre a casa da louca, o garoto vizinho ficou contando histórias, como todos os garotos fazem quando tem a oportunidade de amedrontar outro menor. A mãe explicou que a moradora não era louca, ela não tinha filhos, então ninguém a visitava, nunca viu um carro entrar naquela garagem ou sair, ninguém nunca estacionou ali na frente. Disse que viu a senhora algumas vezes ao sair pela manhã, falou que era uma velinha amável, cabelos brancos e semrpe usava um vestido florido, a cara enrugada "que nem a da sua vó" disse a mãe, nada pra se ter medo, filho.

III.
Restaurante Pizza Planet. Pedido para entrega. O motoboy segue para o endereço dado, com a pressa habitual de quem corre com o prazo na bunda, chega à Rua dos Tordos, nº52.
Toca uma vez.
Toca a segunda vez.
Toca uma terceira.
E vai embora, alguém deve ter pego o endereço errado.

IV.
Fórum da cidade, a única vara cível trabalha sem cansar. Os 7 oficiais de justiça atendem aos seus ofícios. Carlos percebe que vai ao mesmo endereço de Alberto, que deve visitar a mesma casa de Mariana e assim por diante, todos os sete fiscais vão a um mesmo endereço, a Rua dos Tordos nº52, cada um entregar uma carta diferente, temos aqui processos da Companhia de Água, de Luz, de Telefone, da Locadora (ela alugou uma cópia de "E O Vento Levou há 6 meses), da TV a cabo, da Biblioteca (não devolveu o exemplar de O Zahir há também 6 meses) e a Prefeitura, cada um com seu processo diferente, cobrando valores devidos, custas judiciais e honorários cada um, os Oficiais calcularam e a Sra. Annabele Michaels deve a essas pessoas o montante de 4.000 reais. Todos eles combinaram de ir numa mesma van, assim, cobrando cada um pela sua própria diligência, mas usando apenas uma, o dinheiro que sobraria iria pagar uma cerveja no happy-hour da repartição após feita a cobrança da Rua dos Tordos, nº52.

V.
Na porta, sete fiscais encaram a pilha de correspondência, datando des de Maio do ano passado. Duas crianças que jogavam bola na outra rua param e encaram os Oficiais.
A polícia é chamada para abrir a porta, o mau-cheiro que exala de dentro da porta horrendo. Os policiais entram e encontram um corpo já apodrecido da Sra. Annabele.

VI.
RELATÓRIO DE ÓBITO
Médico responsável: Dr. Alberto Medeiros
Causa da Morte: Parada Cardio-respiratória
Relatório:
A Sra. Annabele foi encontrada em sua morada, sentada em sua cadeira de balanço no dia 08 de Outubro. A casa foi aberta mediante força policial (Anexo I), ela foi encontrada em estado de decomposição avançado, aparentemente aconteceu enquanto tomava chá, conforme se pode ver emexame fotográfico (Anexo II).
A Falecida não deixou bens ou dívidas. Não foi encontrada família para reclamar o corpo.

VII.
Os fiscais receberam cada um a sua cópia do relatório para fins processuais. Todos os processos foram arquivados.
Após os procedimentos, os fiscais se encaram:
-Alguém quer tomar uma cerveja?

(se alguém me pedir, eu tenho um final alternativo já escrito pra quem achar esse muito triste =) )


FINAL ALTERNATIVO

V.
Ao chegarem à casa, os fiscais encaram um aviso na porta: "SENHORES OFICIAIS, COBRADORES OU FILHOS DA PUTA EM GERAL: Fui embora dessa merda, deixei 9 meses de aluguel já pago. Não me procurem, fugi. Talvez eu volte, talvez não, tenho câncer e mais 10 meses de vida, peguei minhas economias e fui viver" abaixo do escrito, uma foto, mostrando uma velha simpática, o cabelo azul, transpirando bondade, mostrando os dois dedos médios.

VI.
Numa estação de esqui em Aspen, dona Annabelle tem um infarto fulminante. Ela morre ainda um pouco bêbada da noite passada, só ressentindo nunca ter ficado bêbada antes.

VII.
Após receberem o recado da Sra. Annabelle, os fiscais olham suas pranchetas, ninguém tem mais trabalho para o dia. Vão tomar uma cerveja no bar do lado do forum sem nenhum transtorno.

2 comentários:

  1. não achei, mas não me decepcionou, como sempre..
    só fiquei curiosa pelo final alternativo..
    me manda?

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  2. hehe, é claro, mando
    bem vinda de volta à internet hahaa

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