quinta-feira, 24 de junho de 2010

I.

Fumando um cigarro
encostado na parede do prédio
em meio a prostitutas, assassinos,
advogados, padres,
pessoas boas e más.

Navegando em seu próprio ego
planejando vinganças
escrevendo pessoas num quadro
passa uma atriz falida
com a cara cheia de botox.

Entra no prédio às 4 da tarde
só ouve os seus passos no corredor escuro
olhos que o julgam, palavras que definem
outros egos, que o comeriam vivo sem dizer palavra
um "oi" sem compromisso no elevador.

Amargurado, senta à mesa 43-B,
no cubículo do fundo, à esquerda
com vista para o prédio vizinho e só
tudo é cinza, a cadeira, a mesa, a tela do computador
escreve um relatório, sem gosto.

Tec tec tec tec tec.

Na parede oposta, Jesus crucificado
na parede adjacente um palhaço chora
(que quadro horrível)
à esquerda um mural de fotos de maridos, filhos, cães
era assim quando começou

5 e meia
o palhaço ainda chora
acho que a piada era ruim
talvez ele teve um dia péssimo

15 para as 6
para de pensar no palhaço,
o chefe cobra o relatório
(que está pronto há uma hora)
ninguém parece contente

6 horas
todas as despedidas, beijinhos no rosto
que ele não quer, nem precisa
é o fim de uma quarta-feira
amanhã acorda e estará de volta, às 10

Parece não ter fim.
(Continua?)

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